(Surfing on a) Rocket in Rio


SEIS PASSEIOS

 

1.
Brasília e Jardim da Penha – o império da razão a serviço do urbanismo. A primeira foi projetada para não ter esquinas; a segunda para tê-las todas. Dizem até que o bairro capixaba surgiu de croquis descartados na construção capital federal. Não sei ao certo. Caso seja verdade, temos o privilégio de possuir os corners de Brasiília!

 

2.
A dificuldade de se comprar um bom livro ou disco no país é agravado pelo drama dos nomes próprios (geralmente associado ao futebol). Imaginem vocês que rodei livrarias em Vitória a procura de títulos do Antônio Negri (principalmente IMPÉRIO e PODER CONSTITUINTE). Não achei nenhum. Quando aportei na última casa, pedi ao rapaz que consultasse para mim os livros do autor no terminal de computador. Nenhum, infelizmente – respondeu. Espere ai: saibam vocês que o vendedor havia consultado pelos livros de um tal de Antônio NEGRY. Acho que todos os outros vendedores acompanharam o raciocínio finalmente desvendado. Retruquei logo: O que é isso, meu rapaz? No Brasil não acreditamos em K, W e Y, ou melhor, não com muita freqüência. Faça o favor de procurar pelo mais simples, Antônio Negri com “i”.

 

3.
Escrevi, outro dia, um prelúdio de um conto. Tenho o mau costume de não terminar os contos que começo. Outro dia disseram-me tenho o mau costume de nem começar os contos que gostaria de escrever. De mau costume, logo vira identidade. Antes mesmo de criar uma literatura, estou emprenhado em criar uma teoria para ela – espírito acadêmico? Vamos a uma tentativa: quero uma literatura constrangedora, para mim e para os meus amigos... constranger estranhos, não seria muita falta de educação?

 

4.
Eu continuo ouvindo os mesmos discos: Beatles, Belle and Sebastian, Tortoise, Ultraje a Rigor, Dead Fish, Of Montreal, Pato Fu, The Smiths, The Strokes.

 

5.
Tenho um vizinho Bem-te-vi. Acredito que nasceu, inclusive, em frente a minha janela, onde há um poste, um transformador, um ninho. Simpático, penas e plumas aparentemente bem cuidadas, canto suave e nunca inoportuno. Esta semana eu resolvi fazer amizade com o bicho, seguindo toda a tradição de ter sido criado no interior: deixei meio mamão sobre a caixa do ar-condicionado. Para a minha surpresa, no terceiro dia o mamão continuava intacto, a não ser por estar consideravelmente murcho e com bolores. Logicamente, os pássaros da capital não gostam de mamão, ou melhor, nem devem conhecer frutas. O que comem? Insetos e restos?

Semana passada estive em Alegre. Fui descansar, curtir minha família e rever meus amigos. Conversava com o Francisco sobre um sentimento que ele sempre expressava quando chegava de Mariana, e agora São Paulo, nos recessos da universidade, o qual começo a entender e sentir (uma espécie de alívio e desejo).

Acontece que em Alegre, nos parece, o acesso a certas coisas (livros, discos, vídeos, cinema, teatro...) é restrito e empresta aos moradores, principalmente aos jovens, a sensação de serem reles expectadores do mundo. Mas reparamos que fora da pequena cidade talvez seja pior. Parece que a dificuldade nos impõe uma sede enorme e uma vontade de sugar tudo e suprir todas as lacunas com a reflexão. Inversamente se dá por aqui (e por lá), onde não se tem tempo de se meditar e criar as emendas para as coisas: tudo por aqui parece ter buraco e as pessoas os pulam para consumir o que vem em seguida.

Estranho. Estou errado? Cartas a este Blog.

(publicado alhures em 2004)

 

6.
Imagine que você vai compra um aparelho de telefone celular. Você precisa que ele fale e lhe escute bem, que disque, tenha agenda de contatos e que seja bonitinho, certo? Pois nunca encontrará algo assim, pois todos os aparelhos devem ter joguinhos, acessar a internet, receber e-mails, possuir salas de bate papos e uma infinidade de funções que você nunca usará ou não lhe terá utilidade. Lógico que por estas funções, a empresa que lhe vende, pode meter a mão no seu bolso e lhe estorquir o quanto quiser: você precisa do aparelho para falar; eles só tem para vender um que fala, anota, tira foto, ouve rádio, serve chazinho (mas não senta no colo e lhe faz um cafuné), e por todas esta e outras funções, é excessivamente caro.

Hoje fui comprar uma escrivaninha. No final da busca, numa das últimas lojas, um vendedor (?), me disse que como eu queria - quatro pernas e onde colocar dois ou três livros, gavetas e prateleiras talvez - nunca encontraria; apenas desktops para computadores estavam disponíveis no mercado, pois hoje em dia, com o advento da informática, todos estudam em frente aos PCs, acessando a internet... Ninguém estuda mais? - perguntei.

(A minha tática mudou. Lembrei do meu amigo Rogério, que tem um armário de banheiro, daqueles de pia mesmo, no quarto, e diz que maminha estante de Alegre, é "de sala de estar", agora peço por mesas de cozinha de madeira, 1 metro por 80 centímetros.)

Parece que ninguém se revolta contra esta ditadura do complicado, somente este pobre alegrense que aprendeu com seu pai a não complicar as coisas e a estudar apoiando os livros sobre uma mesa em um lugar tranquilo.

Meu pai não gostava de celular, como odiava caixas eletrônicos, apesar de passar horas se divertindo na internet fazendo as suas pesquisas em sítios de genealogia pela rede à fora.

(publicado alhures em 2004 – finalmente achei a escrivaninha!)



Escrito por Luciano Bravo às 16h01
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LITERATURA CONSTRANGEDORA

Bato o salto da sandália no oco do piso – pedreiro nem chega perto: denuncio logo os seus defeitos.

(Prelúdio a um provável Conto)



Escrito por Luciano Bravo às 18h17
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