(Surfing on a) Rocket in Rio


HUMBERTO E VÂNIA

Humberto gostava de Vânia e Vânia escondia 14 anos sob o corpo de mulher e os gostos de mulher: botões de rosas que sangravam de tão vermelhas e frescas, mordiscadas no pescoço desavergonhadamente nu, dois ou três tapinhas e – mão firme – e uma brusca tomada-de-jeito.

À Humberto, beijo algum – coisa de menina – dizia e dizia: quero mais do meu homem, beijar é cosia de casal apaixonado; de você, quero não. Os botões, vermelhíssimos vermelhíssimos, latejavam aflitos de desolação.

– Amor incorrespondido é dose, meu chapa. Ainda mais para um senhor meio-dia cinzento quanto eu. (O corpo atlético ecoava distante, uma chaminé na boca, a fumaça confundida com os cabelos e uma pulga insistente em festejar na nuca caracolada). Trabalhei na fundição, mas não sou de aço, qualquer dia beijo-a – mesmo que beijo vilipendiado!

Outro dia: Tenho namorado para beijar; mas nada além, amor não se rima com as nossas coisas. Ela nem ai... ao namorado, beijinho; a este homem apenas palmadas nas nádegas e tomada-de-jeito. Para o inferno com pernas e peitos; quero beijo na boca. – A puta pariu tal – reclamava Humberto dedinho-machucado-em-espinho-dos-botões.

Não tardou para que o pai de Vânia descobrisse a pouca vergonha do vizinho. Humberto, cadeia – causa e conseqüência (amantes?) beijam-se. A menina, 14 anos e menor e inocente e coisa-e-tal. Juízo sumário e sela separada para evitar apedrejamento – faltar-lhe-ia um Cristo se puta fosse?

E cruz e credo algum aliviam a barra. As contas: envelheceu cento e dez minutos no primeiro mês. Paredes, uniforme, a chaminé na boca e os cabelos – monotônico esvaziamento. – Você deveria saber, um homem dez para as duas abandona muitos interesses.

Segundo mês e visita inesperada. Beijinho na boca para começar! – tenro, macio, delicado: quase casto, quase uma indecência. – Reclamei para vir-lhe dizer: agora só beijo você; o bem, anteontem, tomou-me-de-jeito: descobri todas as saudades que lhe tenho.



Escrito por Luciano Bravo às 11h46
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SI CONTRA SI



Escrito por Luciano Bravo às 15h48
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