TRADIÇÃO DE FAMÍLIA
Estou indo para o Rio passar uma temporada de estudos e pesquisas. Não é a primeira vez que me mudo de cidade. Tentei por diversas vezes deixar Alegre para trás; consegui em duas oportunidades. Deixei Vitória uma única vez, em 1999. Foi extremamente dolorido já que havia passado os melhores anos da minha juventude na capital. O grande lance, é vez novamente de deixar Vitória.
E o grande lance agora também é deixar um lugar em que vivi excelentes momentos. E torna-se tudo mais grave quando penso nos amigos e na minha garota. Não importa toda a conversa e toda a certeza de que sempre passarei fins de semana aqui e que em dezembro – ora, logo ali – estarei de volta.
Conversando com a minha sábia mãe sobre o assunto, difícil não foi lembrar o retrospecto da minha família no tópico namoro a distância. Acho que já é uma tradição. Dura e sofrida tradição. Algumas famílias têm festas próprias, outras viajam juntas, outras ainda comem certas coisas nas mais diversas datas. A minha família namora a distância.
Vejamos que a lista é extensa. Do lado da minha mãe são sete em sete os filhos do Dr. João e da Dona Judith que tiveram que se virar para manter um relacionamento à distância. E bota distância nisso. No caso da minha mãe, o meu velho pai ficou um ano no Rio e, um tempo depois, seis meses em Pernambuco. Quatro dos meus tios sofreram em Alegre pelos pares na capital fluminense. Outra tia passou sete anos com cartas que vinham freqüentemente de São Paulo. Ainda temos a minha madrinha que nem telefone tinha para falar com o noivo em Barra do Bugre (MT).
Do lado do meu pai, sorte diversa não há. A história do meu pai é o contra peso daquela da minha mãe. Lembro que os dois nao cansavam de me mostrar fortos e entre leas uma foto do meu pai dividido pelo Equador. Um outro tio esperou ano e meio pela namorada que foi juntar dinheiro na Itália. Minha tia esperou pelo noivo longos oito meses em Alegre enquanto ele carimbava toneladas de papeis na sede do Banco do Estado do Espírito Santo. Certo que tenho outro tio paterno, e que este não sofreu um namoro à distância, mas como não sei o que deu errado com a educação dele, não o levo em consideração para muitas coisas.
Ao que parece, trata-se de tradição mesmo. Os números são difíceis de serem contrariados. Mas um dado que não pode passar despercebido é a teimosia da minha família em fazer isso com quem gosta. Porém, tradição mesmo, posso garantir por experiência que acompanhei por vinte e dois anos, é que a distância não sacrifica nada e que o final da história foi sempre bom e alegre.
Escrito por Luciano Bravo às 16h11
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