(Surfing on a) Rocket in Rio


EVERYMAN

Tenho um casal de amigos aqui no Rio que, quando (e se) partir, muito de mim que ficará será por conta deles. Sinto-me adotado. Hoje tive o prazer de, mais uma vez, os ter perto. Queria dividir com eles certas angústias que me entorpecem os dias e tomam a minha paz. Não queria sentir do nosso encontro uma despedida antecipada. Eles torcem para que eu fique. O chato é que eu tenho o coração mole e posso ceder ao menor apelo – ou chorar, que é provável. Contudo, fico feliz de poder festejar com eles qualquer coisa para aqui ou para Vitória.

 

Apesar de todos estarmos ligados ao mesmo ramo e coisa e tal, incrível como o Direito apenas pontua nossas conversas e como conseguimos discutir assuntos aparentemente dispares, como a veia comuna de Drummond, à menina má de Vargas Llosa, passando pelas personalidades da política e da crítica política nacional, impressa em geral, financiamento de obras públicas, contratações, corrupção – chegamos a aportar vez por outra em algum grande filme do cinema mundial e por ai seguimos: livres como imagino que bons amigos devem ser.

 

Daniel e Constança me presentearam no Natal com o formidável livro “Homem Comum” do autor americano Philip Roth. Este romance, um dos poucos os quais me atrevi (sim esta é a palavra certa) a ler desde que aqui cheguei, causou-me certo estranhamento. Não muito pela tensão das páginas iniciais ou pelo final angustiante e abrupto. Mas muito pelo caminho percorrido pelo protagonista: uma senda para a morte inevitável e anunciada logo cedo na cama ao lado, no quarto de hospital que dividia com um menino ainda na infância.

 

O início e o fim da vida são conhecidos – e não é sobre isso que gostaria de falar. Estou interessado no caminho, na linha frágil que une os extremos. Não me preocupo para onde seguir, mas como seguir. O meu maior medo é chegar ao final e, tal qual o personagem, perceber que me tornei algo que não desejava. Até quando viver ou não mais viver no Rio (uma analogia forçada para o enredo do livro)? Blá! Quero mais saber como. Percebo que une os termos da minha estada uma linha bonita: tenho amigos aqui! E amigos valiosos com idéias e desejos que se tornaram importantes para a minha vida.

 

Prato principal do nosso jantar? Carinho, aconchego e muitas risadas.

 

Tenham uma ótima vida.

 



Escrito por Luciano Bravo às 00h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




a brocha lambe rimbaud

tique-taque, tique-taque e beijinho na boca.
- porrr, o teco me deixou brocha.

papinho besta de ir passar dias em paris.
desconverso com um rimbaud na ponta da língua.

e tudo que língua lambe vira um rimbaud só
– a parede, o vidro, o vento e até aquilo.

 

ps: em outro logar, postei esse mesmo poema falando do baudelaire no lugar do rimbaud. acho que o este poeta merece mais uma lambida do que aquele.



Escrito por Luciano Bravo às 22h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SPLISH SPLASH

splish splash

Rio, Pollock, Asfalto, Seta, Carro, Coca, Cola... Splish, Splash

PS: Publicado no www.fotolog.com/bravo em 20/09/2007.



Escrito por Luciano Bravo às 14h42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




APARECIDO

Há muito não escrevo aqui. Uma pena. A vida mudou muito e existem coisas que mereceriam serem escritas no blog. Por hora, deixo algumas notícias. Eu poderia começar comentando que estou no Rio de Janeiro, mas isso já dá para perceber pelo Título deste site e pelas últimas crônicas. Ou mesmo que estou bem. Pois agora estou.

O período tem sido de extrema escassez. Poucas horas na internet; nenhum Download. Poucos discos, apenas o essencial (Radiohead - Ok Computer; Tortoise - Millions Now...; Belle and Sebastian - uns três discos; Pato Fu - Ao Vivo; Chet Baker - Milano 1958). Livros. Poucas amizades (a não ser que os livros e discos sejam levados em conta aqui). Cinema zero. Teatro zero.

Muita meditação. Gosto de andar pelo centro da cidade para pensar e colocar tudo no lugar: dissolver a amargura, colar os músculos nos ossos, diminuir o ranger dos dentes, saldar uma dívida ancestral com deus.

Perdi uma amizade. Discutimos questões de foro moral. Eu não tenho nenhuma; ele muitas.

Gostaria de voltar mais aqui.

Beijos do Luciano



Escrito por Luciano Bravo às 17h11
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




FOTONOVELA EM 7 CAPÍTULOS

Quando publiquei esta quase fotonovela em sete capítulos no meu fotolog, o retorno foi simpático - nada além. Tanto foi assim que a verba (entusiasmo) acabou logo após o quinto ato... dois quadros ficaram no escuro.

Bem, está ai. Vale a pena ver de novo?

TODO MUNDO AMA DOLORES

Fotonovela em 7 capítulos

(Para o seu conforto, mantenha o botão Shift do seu teclado precionado quando clicar nos ícones abaixo)

    

 



Escrito por Luciano Bravo às 16h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




TRADIÇÃO DE FAMÍLIA

Estou indo para o Rio passar uma temporada de estudos e pesquisas. Não é a primeira vez que me mudo de cidade. Tentei por diversas vezes deixar Alegre para trás; consegui em duas oportunidades. Deixei Vitória uma única vez, em 1999. Foi extremamente dolorido já que havia passado os melhores anos da minha juventude na capital. O grande lance, é vez novamente de deixar Vitória.

E o grande lance agora também é deixar um lugar em que vivi excelentes momentos. E torna-se tudo mais grave quando penso nos amigos e na minha garota. Não importa toda a conversa e toda a certeza de que sempre passarei fins de semana aqui e que em dezembro – ora, logo ali – estarei de volta.

Conversando com a minha sábia mãe sobre o assunto, difícil não foi lembrar o retrospecto da minha família no tópico namoro a distância. Acho que já é uma tradição. Dura e sofrida tradição. Algumas famílias têm festas próprias, outras viajam juntas, outras ainda comem certas coisas nas mais diversas datas. A minha família namora a distância.

Vejamos que a lista é extensa. Do lado da minha mãe são sete em sete os filhos do Dr. João e da Dona Judith que tiveram que se virar para manter um relacionamento à distância. E bota distância nisso. No caso da minha mãe, o meu velho pai ficou um ano no Rio e, um tempo depois, seis meses em Pernambuco. Quatro dos meus tios sofreram em Alegre pelos pares na capital fluminense. Outra tia passou sete anos com cartas que vinham freqüentemente de São Paulo. Ainda temos a minha madrinha que nem telefone tinha para falar com o noivo em Barra do Bugre (MT).

Do lado do meu pai, sorte diversa não há. A história do meu pai é o contra peso daquela da minha mãe. Lembro que os dois nao cansavam de me mostrar fortos e entre leas uma foto do meu pai dividido pelo Equador. Um outro tio esperou ano e meio pela namorada que foi juntar dinheiro na Itália. Minha tia esperou pelo noivo longos oito meses em Alegre enquanto ele carimbava toneladas de papeis na sede do Banco do Estado do Espírito Santo. Certo que tenho outro tio paterno, e que este não sofreu um namoro à distância, mas como não sei o que deu errado com a educação dele, não o levo em consideração para muitas coisas.

Ao que parece, trata-se de tradição mesmo. Os números são difíceis de serem contrariados. Mas um dado que não pode passar despercebido é a teimosia da minha família em fazer isso com quem gosta. Porém, tradição mesmo, posso garantir por experiência que acompanhei por vinte e dois anos, é que a distância não sacrifica nada e que o final da história foi sempre bom e alegre.



Escrito por Luciano Bravo às 16h11
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




AI DE TI COPACABANA

Vitória - Segunda-feira aporto no Rio de Janeiro com planos de ficar. Aliás, não é tão grave assim: ficarei por lá cinco ou seis meses, até concluir as disciplinas do Mestrado em Direito. Ainda assim, resta certa gravidade na situação.

Eu já percorro o trajeto para assistir as aulas há uns bons ano e meio (grande parte na condição de aluno especial). Vamos fazer umas continhas (sem envolver grana, senão eu desisto): Foram quatro quadrimestres até agora. Doze encontros por quadrimestre. Desta forma... vai um... estive no Rio em 48 (quarenta e oito) oportunidades. Vejamos que a distância entre Vitória e a capital fluminense é de 800 km – 1600 km se contarmos a volta, portanto eu já rodei perto de uns 76.800 (setenta e seis mil e oitocentos) km!

Gostaria de ver no Google aonde, com esta quilometragem, eu chegaria neste mundo a fora.

Engraçado que, eu não sentia, a não ser nas primeiras vezes, que estava tão longe. A rotina sempre foi simples, e não escapava do itinerário rodoviária-faculdade-casa da tia-rodoviária. Momentos rápidos, curtos e limpos. Ora, dormir em uma cidade e acordar na outro causa-nos ilusão de não deslocamento: Rio já era aqui do lado nestes momentos.

Acontece que a hora de ir passar longos períodos lá se aproxima e a distância começa a mostrar-se com cores fortíssimas. Estou a poucos dias de encarar a minha primeira semana como habitante daquela capital e tenho desconfiado que as vozes no telefone ficarão baixinhas pela distância. De certo falarei mais alto, imaginando que também não me ouvirão. Falarei muito e muito rápido para que nada se perca pelo emaranhado de fios e fibras – euforia à toque de caixa.

A saudade já torna tudo mais distante, até a cidade que ainda não deixei. E tenho bons motivos para saudades, ora se não: há muito me acostumei com as visitas da  minha mãe aqui, o que tornava mais espaçadas as idas para a nossa casa em Alegre (ES); não tenho muitos amigos e a maioria está em Vitória; e importantíssimo, o meu doce brotinho mora aqui (ai ai, Coração!).

Eta vida!



Escrito por Luciano Bravo às 14h03
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




PEQUENO DRAMA NO LOTAÇÃO

Final de tarde e dia quente. Ônibus ainda mais quente e super lotado.
As personagens são Senhora, Trocador e Luciano.
A ação se inicia logo no início da Terceira Ponte.

Senhora: Todos os dias o 508 está lotado... não aguento mais viajar em pé e espremida assim.

Trocador: A senhora pode ligar para a empresa e reclamar.

Luciano: Adianta alguma coisa?

Torcador: Acho que não. Todos os dias a Ceturb recebe umas cinquenta ligações e a situação continua a mesma.

Luciano: Lógico! São um monte de empregados, sem poder econômico, reclamando... isso não significa nada para a Ceturb... não a vincula em nada.

Senhora: (Pesarosa) É...

Trocador: Também não é assim: se o ônibus passar pelo ponto e não recolher os passageiros, ou se eu não der o toco direito ou for mal educado com a Senhora, pode ligar para a empresa e informar tudo direito que o motorista ou eu tomamos bronca!

Luciano: (Irônico) Claro! Você é mais um pobre, um empregado... sem dinheiro ou voz. Se ficar dando prejuízo para a empresa, você tem que se dar mal mesmo!

Trocador: Não é assim...

Luciano: Então como é? Não vai mudar nada enquanto os patrôes, que tem dinheiro, não se mobilizarem e exigirem mais transportes coletivos para qu os seus empregados cheguem mais animados nas empresas para produzirem mais!
(Voltando-se para a Senhora, que a partir daqui não entende mais nada) A senhora trabalha com o que? Quem é a sua patroa? Peça para ela ligar dizer que a senhora poderia render mais no emprego se viajasse da Serra para a Praia da Costa sentada perto da janela...

Trocador: Ningém vai fazer isso.

Luciano: Lógico que não, mas continuamos esperando, não é mesmo? Nós deveríamos ir buscar. Eu só vejo duas alternativas: a primeira, que é muito difícil, é o trabalhador debandar dos potos de trabalho por uma semana. Será uma semana sem pegar ônibus, o que poderá arrebentar com a Ceturb. A outra hipótese, um pouco menos difícil, é não se comprar mais vale-transporte: acredito que a maioria das suas contas a Ceturbe paga com o este valor que recebe antecipado. Imagina ela ter que recorrer ao banco para quitar as dívidas!

Trocador: (confuso) Só se for...

Senhora: ?!

Luciano: É o meu ponto, até logo.



Escrito por Luciano Bravo às 12h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




CINCO DISCOS PARA OUVIR SEMPRE

Fazer listas é extremamente difícil para mim. Porém, descobri que os problemas diminuem quando não pensamos muito para fazê-las. Desta forma, escolhi cinco discos que gosto de ouvir sempre. O que acharam?


1- Belle and Sebastian - If You're Feeling Sinister
2- The Who - Tommy
3- Pavement - Brighten the Corners
4- REM - Automatic for the people
5-
Air - Talkie Walkie



Escrito por Luciano Bravo às 15h37
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




UM HAIKU FAMOSO

 

Bashô, Japão
1686

O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

P. Franchetti e E.Doi

oOo

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.

Cecília Meirelles

oOo

Embaixo do tanque
Não encontro o que
procuro
Uma rã me assusta.

Clóvis M. dos Santos

oOo

chuá, chuá
coach, coach
tchibum!

Estrela Ruiz Leminski

oOo

Uma rã saltando
blum o rio também
pula alforriado

Fernando Sérgio Lyra

o salto da rã
sobre a folhagem
contorce o verso

Jaime Vieira

oOo

O velho tanque
uma rã mergulha
dentro de si.

Jorge de Souza Braga

oOo

Na beira do charco,
coaxa o sapo-ferreiro
e acorda o silêncio.

Leda Mendes Jorge

oOo

águas paradas
mal pula a rã se inundam
de ondas sonoras

Nelson Ascher

oOo

um salto de sapo
jamais abolirá
o velho poço

Paulo Leminski

Fonte: Caqui

(Este post, um período de reflexões)



Escrito por Luciano Bravo às 21h17
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




HUMBERTO E VÂNIA

Humberto gostava de Vânia e Vânia escondia 14 anos sob o corpo de mulher e os gostos de mulher: botões de rosas que sangravam de tão vermelhas e frescas, mordiscadas no pescoço desavergonhadamente nu, dois ou três tapinhas e – mão firme – e uma brusca tomada-de-jeito.

À Humberto, beijo algum – coisa de menina – dizia e dizia: quero mais do meu homem, beijar é cosia de casal apaixonado; de você, quero não. Os botões, vermelhíssimos vermelhíssimos, latejavam aflitos de desolação.

– Amor incorrespondido é dose, meu chapa. Ainda mais para um senhor meio-dia cinzento quanto eu. (O corpo atlético ecoava distante, uma chaminé na boca, a fumaça confundida com os cabelos e uma pulga insistente em festejar na nuca caracolada). Trabalhei na fundição, mas não sou de aço, qualquer dia beijo-a – mesmo que beijo vilipendiado!

Outro dia: Tenho namorado para beijar; mas nada além, amor não se rima com as nossas coisas. Ela nem ai... ao namorado, beijinho; a este homem apenas palmadas nas nádegas e tomada-de-jeito. Para o inferno com pernas e peitos; quero beijo na boca. – A puta pariu tal – reclamava Humberto dedinho-machucado-em-espinho-dos-botões.

Não tardou para que o pai de Vânia descobrisse a pouca vergonha do vizinho. Humberto, cadeia – causa e conseqüência (amantes?) beijam-se. A menina, 14 anos e menor e inocente e coisa-e-tal. Juízo sumário e sela separada para evitar apedrejamento – faltar-lhe-ia um Cristo se puta fosse?

E cruz e credo algum aliviam a barra. As contas: envelheceu cento e dez minutos no primeiro mês. Paredes, uniforme, a chaminé na boca e os cabelos – monotônico esvaziamento. – Você deveria saber, um homem dez para as duas abandona muitos interesses.

Segundo mês e visita inesperada. Beijinho na boca para começar! – tenro, macio, delicado: quase casto, quase uma indecência. – Reclamei para vir-lhe dizer: agora só beijo você; o bem, anteontem, tomou-me-de-jeito: descobri todas as saudades que lhe tenho.



Escrito por Luciano Bravo às 11h46
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SI CONTRA SI



Escrito por Luciano Bravo às 15h48
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




.

Escrito por Luciano Bravo às 13h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




BURACOS - ESPACIAIS

 

Dias conturbadíssimos mundo à fora – choque de realidade a todo momento! Enquanto isso na República Checa, pausa para o delírio:



Escrito por Luciano Bravo às 18h22
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SEIS PASSEIOS

 

1.
Brasília e Jardim da Penha – o império da razão a serviço do urbanismo. A primeira foi projetada para não ter esquinas; a segunda para tê-las todas. Dizem até que o bairro capixaba surgiu de croquis descartados na construção capital federal. Não sei ao certo. Caso seja verdade, temos o privilégio de possuir os corners de Brasiília!

 

2.
A dificuldade de se comprar um bom livro ou disco no país é agravado pelo drama dos nomes próprios (geralmente associado ao futebol). Imaginem vocês que rodei livrarias em Vitória a procura de títulos do Antônio Negri (principalmente IMPÉRIO e PODER CONSTITUINTE). Não achei nenhum. Quando aportei na última casa, pedi ao rapaz que consultasse para mim os livros do autor no terminal de computador. Nenhum, infelizmente – respondeu. Espere ai: saibam vocês que o vendedor havia consultado pelos livros de um tal de Antônio NEGRY. Acho que todos os outros vendedores acompanharam o raciocínio finalmente desvendado. Retruquei logo: O que é isso, meu rapaz? No Brasil não acreditamos em K, W e Y, ou melhor, não com muita freqüência. Faça o favor de procurar pelo mais simples, Antônio Negri com “i”.

 

3.
Escrevi, outro dia, um prelúdio de um conto. Tenho o mau costume de não terminar os contos que começo. Outro dia disseram-me tenho o mau costume de nem começar os contos que gostaria de escrever. De mau costume, logo vira identidade. Antes mesmo de criar uma literatura, estou emprenhado em criar uma teoria para ela – espírito acadêmico? Vamos a uma tentativa: quero uma literatura constrangedora, para mim e para os meus amigos... constranger estranhos, não seria muita falta de educação?

 

4.
Eu continuo ouvindo os mesmos discos: Beatles, Belle and Sebastian, Tortoise, Ultraje a Rigor, Dead Fish, Of Montreal, Pato Fu, The Smiths, The Strokes.

 

5.
Tenho um vizinho Bem-te-vi. Acredito que nasceu, inclusive, em frente a minha janela, onde há um poste, um transformador, um ninho. Simpático, penas e plumas aparentemente bem cuidadas, canto suave e nunca inoportuno. Esta semana eu resolvi fazer amizade com o bicho, seguindo toda a tradição de ter sido criado no interior: deixei meio mamão sobre a caixa do ar-condicionado. Para a minha surpresa, no terceiro dia o mamão continuava intacto, a não ser por estar consideravelmente murcho e com bolores. Logicamente, os pássaros da capital não gostam de mamão, ou melhor, nem devem conhecer frutas. O que comem? Insetos e restos?

Semana passada estive em Alegre. Fui descansar, curtir minha família e rever meus amigos. Conversava com o Francisco sobre um sentimento que ele sempre expressava quando chegava de Mariana, e agora São Paulo, nos recessos da universidade, o qual começo a entender e sentir (uma espécie de alívio e desejo).

Acontece que em Alegre, nos parece, o acesso a certas coisas (livros, discos, vídeos, cinema, teatro...) é restrito e empresta aos moradores, principalmente aos jovens, a sensação de serem reles expectadores do mundo. Mas reparamos que fora da pequena cidade talvez seja pior. Parece que a dificuldade nos impõe uma sede enorme e uma vontade de sugar tudo e suprir todas as lacunas com a reflexão. Inversamente se dá por aqui (e por lá), onde não se tem tempo de se meditar e criar as emendas para as coisas: tudo por aqui parece ter buraco e as pessoas os pulam para consumir o que vem em seguida.

Estranho. Estou errado? Cartas a este Blog.

(publicado alhures em 2004)

 

6.
Imagine que você vai compra um aparelho de telefone celular. Você precisa que ele fale e lhe escute bem, que disque, tenha agenda de contatos e que seja bonitinho, certo? Pois nunca encontrará algo assim, pois todos os aparelhos devem ter joguinhos, acessar a internet, receber e-mails, possuir salas de bate papos e uma infinidade de funções que você nunca usará ou não lhe terá utilidade. Lógico que por estas funções, a empresa que lhe vende, pode meter a mão no seu bolso e lhe estorquir o quanto quiser: você precisa do aparelho para falar; eles só tem para vender um que fala, anota, tira foto, ouve rádio, serve chazinho (mas não senta no colo e lhe faz um cafuné), e por todas esta e outras funções, é excessivamente caro.

Hoje fui comprar uma escrivaninha. No final da busca, numa das últimas lojas, um vendedor (?), me disse que como eu queria - quatro pernas e onde colocar dois ou três livros, gavetas e prateleiras talvez - nunca encontraria; apenas desktops para computadores estavam disponíveis no mercado, pois hoje em dia, com o advento da informática, todos estudam em frente aos PCs, acessando a internet... Ninguém estuda mais? - perguntei.

(A minha tática mudou. Lembrei do meu amigo Rogério, que tem um armário de banheiro, daqueles de pia mesmo, no quarto, e diz que maminha estante de Alegre, é "de sala de estar", agora peço por mesas de cozinha de madeira, 1 metro por 80 centímetros.)

Parece que ninguém se revolta contra esta ditadura do complicado, somente este pobre alegrense que aprendeu com seu pai a não complicar as coisas e a estudar apoiando os livros sobre uma mesa em um lugar tranquilo.

Meu pai não gostava de celular, como odiava caixas eletrônicos, apesar de passar horas se divertindo na internet fazendo as suas pesquisas em sítios de genealogia pela rede à fora.

(publicado alhures em 2004 – finalmente achei a escrivaninha!)



Escrito por Luciano Bravo às 16h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  Igual a Tudo na Vida
  Psicodog
  Blonicas
  Liberal Libertário Libertino
  Rogério Campos - Febre 7
  Golomblog